”ENTRE A QUINTA AVENIDA E AS PRIMEIRAS NECESSIDADES” para o @ColetivoWeLove

O mais cruel em ”virar gente grande” é ter que mensurar sonhos, dar tamanho para o que se deseja, ponderar entre aspirações e necessidades e, frequentemente, escolher.

Nós, quando desejamos a liberdade, não cogitamos o ato da escolha. Por anos de espera, nutrimos a ideia de uma vida sem fronteiras entre o que sonhamos e o que precisamos para viver. Colocamos tudo numa lista e acreditamos na sua realização absoluta com os ”okays” que iremos preencher em cada uma das caixinhas esperando por rabiscos, que – diz a lenda – originaram o logo da Nike. Aliás, quem eu também culpo por esse leve despreparo e imaturidade na hora de optar, afinal, nem tudo é tão fácil para ”Just do it”. Infelizmente.

Nesse momento, espero a resposta da aprovação ou não de um financiamento imobiliário para comprar aquele que será o meu primeiro e, possivelmente, único apartamento. Um objetivo muito claro para um filho de pais solteiros, ou seja, uma bandeira sem território, que sempre viveu sob tetos construídos para famílias das quais faz parte, mas não por inteiro. Aliás, em casas divididas entre a.C e d.C, antes e depois do atual casamento, a prioridade é sempre de quem tem seu nome escrito no ”novo testamento” (se é que vocês me entendem…). Nada que precisa ser explícito, mas fácil e até justo de subentender.

E é nessa esquina da vida que o sonho de realmente pertencer a um lugar no mundo se choca com a necessidade de começar uma cruzada em busca de lugares, culturas, línguas, gostos, cidades, pessoas que ele – esse mundo – tem para me mostrar, no exato trecho do caminho em que a busca pelo pouso atrapalha a força que promove a decolagem.

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Questões como ”É mesmo aqui que eu quero estar? E esse é mesmo o meu lugar?”, ”Até quando?”, ”Eu devo esperar?”, ”De quantos itens dessa minha lista eu pretendo abrir mão por esse master item?”, “E tentar a sorte fora de Goiânia?”, “E tentar morar fora do país por uns tempos?”, são a pauta, desde o momento em que eu assinei o papel que pode comprometer boa parte da minha renda real (aquela pouco otimista que não inclui os freelas). Vozes conformistas brigam com o desejo imediatista de desistir do dinheiro de tantos meses de economia por alguns dias em Nova York. Que, aliás, vai ficar mais alguns anos no pedestal que classifica como supérfluo tudo aquilo que parece não conseguir alcançar.

Supérfluo?

Como alguns dias pelas ruas rabiscadas em paredes por Basquiat e em papéis por Jay-Z podem ser considerados como algo menos urgente? Como a vida adulta tem esse poder de reduzir alguns daqueles desejos que parecem tão existenciais quando o sonhamos, né? Como?

Uma vez, conversando com um desses amigos que faz de qualquer papo uma epifania, me sentenciou que, claro, somos sim escravos da nossa liberdade, reféns das escolhas e, cada vez mais, consumidos por tudo aquilo que optamos por consumir. Acho que a compreensão do nosso livre arbítrio merecia uma grade disciplinar na nossa vida escolar e atenção especial de todos aqueles que nos instruem.

Além disso, a vida poderia ser mais leve. As promessas da fase adulta poderiam ser mais reais quando somos pequenos. Os aplausos da infância poderiam ter sido mais seletivos para nos dar a real proporção dos nossos talentos e até um tanto a mais de humildade. Os sonhos poderiam ser menos insistentes e a gente mais conformado. A gente podia ser mais grato a cada oportunidade. Mas o fato é que eu sou um desses insatisfeitos crônicos que, pra complicar o meio de campo, não nasceu numa realidade socioeconômica bem distante do ideal para cumprir com todos os itens de uma lista interminável de sonhos, assim como tantos que leem esse espaço.

E é nessa eterna batalha do Querer X Poder e Sonho X Realidade, que eu calço os meus Nikes quase toda manhã, desejando o dia em que vá caminhar para uma realidade onde eu posso mais “just do it” sem tanto “think about it”.

Me espera, Empire State?!

  • Essa é uma das minhas contribuições para o Coletivo We Love. Para dos meus textos meus para o site, clique AQUI

Sobre Delan Salazar

Nenhuma vida é tão insignificante a ponto de não merecer o mínimo de atenção e um espaço no interesse de outros. Portanto, escrevo para falar da minha vida, da vida dos outros e das coisas que eu gosto, acredito e...detesto também.
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