”SEM ‘AH’S…’ E ASPAS, VIVER E PONTO” para o @ColetivoWeLove

Ao recusar um bom freela, que seria pago por mês e me traria um bom rendimento mensal a ser economizado para o investimento em coisas que me são importantes, a cliente em potencial, incrédula do meu aparente ‘’pouco caso’’ com a proposta, sarcasticamente me indagou: ‘’Mas quer dizer que você não gosta de dinheiro, então…?’’.

Vamos a proposta:

Nela, eu ficaria com a responsabilidade de, diariamente e a qualquer momento, de segunda a segunda, estar disponível para gerar conteúdo e gerenciar suas redes sociais. Sobretudo, o Instagram. Criando, através de textos ‘’espirituosos e bem-humorados’’, a imagem de um viver saudável, feliz e conectado com a ideia de uma vida plena e bem aproveitada. Para isso, meu iPhone não pararia de apitar, meus papos desencanados na hora do almoço seriam trocados por áudios de urgência no WhatsApp, olhos seriam trocados pela tela do celular e, no lugar de aproveitar o assunto que correria bobo na mesa, eu estaria seriamente compenetrado em achar a reflexão exata para com primor sobre a importância de viver o momento em uma legenda que deveria soar inspiradora. Depois disso, teria que ficar usando uma ida ou outra até a garrafa de café para, no lugar de respirar entre um job e outro, pensar na próxima legenda que falaria de… Sei lá… “Importância da meditação e da abstração para encontramos o melhor em nós’’. Sem falar das noites que me sentiria culpado em, mesmo chegando em casa exausto, querer deixar aquele texto sobre ‘’a importância de uma noite bem dormida’’. E, claro, produzir madrugada adentro relatórios do desempenho daquele dia no resultado de crescimento do perfil.

De manhã, depois de ser acordado por mensagens urgentíssimas às 5 horas, depois de ter ido dormir às quase 3 horas da mesma manhã, teria que, sonolento, escrever algo bem solar para desejar um nascer de dia com muita energia positiva. Sendo que, depois – claro -, aproveitaria a viagem de Uber para responder e-mails sobre demandas futuras. Prometendo para o final de semana a resolução de pautas da próxima semana. Ah…Como seria interessante falar de um viver tão intenso sem…Viver.

Portanto, pensando em não deixar de olhar para o lado pra ficar olhando para baixo, trocando o olho no olho por olho na tela do celular, deixando viver o que acontece na realidade para viver escrevendo sobre uma vida inventada no meu bloco de notas, disse não. Disse não ao dinheiro que poderia me levar para, quem sabe, estar do lado de um grande monumento que eu idolatre, mas que não me permitiria estar ao lado e verdadeiramente fazendo coisas que eu realmente amo.

Não quero me sentir culpado pelo descanso do fim do expediente. Nem me sentir mal por preferir estar com os amigos no lugar de escrever uma lista sobre os ‘’top lugares para se encontrar os amigos’’ (esse ‘’top’’ no texto contém ironia).

Gosto de andar de cabeça erguida e atenta, não abaixada e alheia ao momento. Sinto que as melhores sacadas vêm das memórias que guardamos na saudade das coisas aconteceram. Das coisas que nossa percepção estava aberta para experienciar e receber. Não de pesquisas online.

Eu desisti do freela para não dizer “não” para os próximos sorrisos e, principalmente, não me negar o prazer dos próximos sins… Porque eu prefiro sentir saudade, essa expressão tão brasileira usada para descrever sentimentos de vivências, a sentir a falta trazida pelo arrependimento da ausência de ter estado onde eu ‘’estava’’; ter conversado com quem eu ‘’conversava’’, assistido ao que eu ‘’assistia’’ e vivido o que eu ‘’vivia’’.

Eu fiz uma escolha de vida: pensar sobre pontos finais, rir e chorar por exclamações, supor reticências, ter uma ou outra interrogação. Que, convenhamos, acontecem. Okay.  Mas ‘’ah’s…’’ e aspas, essas não. Essas eu não quero nem entre vírgulas. E portanto, ponto.

  • Essa é uma das minhas contribuições para o Coletivo We Love. Para dos meus textos meus para o site, clique AQUI

Sobre Delan Salazar

Nenhuma vida é tão insignificante a ponto de não merecer o mínimo de atenção e um espaço no interesse de outros. Portanto, escrevo para falar da minha vida, da vida dos outros e das coisas que eu gosto, acredito e...detesto também.
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